quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Gato no telhado


        Padre Damião chegava ali uns vinte ano atrás ainda molecote e já envelhava agora nas manha do lugar. Devoto do santo dos bicho, formara franciscano e diz que indiferente as lei tinha Canário da Terra, Trinca-Ferro, Sabiá e Sanhaço na gaiola. Vivia na loja de ração do Bibico, especulando sobre os produto novo que aparecia pra modo de aumentar o canto e a beleza apossada dos seus bichinho.
        Na secular casa da paróquia, de grande telhado e larga frescura, infernizava o pobre padre o namoro dos gato no avançado das noite. Por medo dos bichano invadir a reserva dos fundo e comer os passarinho, Bibico confessara em secreto segredo a gente de confiança que até vendera chumbinho pra modo de o padre espantar a ameaça. Mas diz que foi tanto gato morto que quando as desconfiança do povo chegou no telhado da paróquia, tratou padre Damião de desrespeitar o Oitavo Mandamento e negar envolvimento, mudando de método sim senhor.
        Agora todas as manhã o povo via padre Damião correndo pra fora da cidade no velho fusca, pra modo de seu passeio matinal. Se especulava em boa e ruim língua qual o motivo daquele ritual. O pastor Alvim, de olho no crescimento de sua Igreja Suprema da Flâmula Celeste, jurava que o padre visitava uma velha senhora que tinha duas ou três netinha engraçadinha na casa dos catorze pra quinze ano; já Catarina de Zé Silva jurava que padre Damião seguia pra gruta da Cabaça, um recanto de sossego onde diziam que corria uma água santa, pra modo de tomar da água sempre todo dia em jejum.
Fora Osmarino de Candinha quem no simples ver sem julgar acabara por dar ao povo a explicação maior, contando que padre Damião saía mesmo era pra despejar o lixo no cacimbão da Mocinha, um poço abandonado onde de tudo se jogava depois que engoliu a esposa do velho Duda uma década atrás, devolvendo só o corpo morto depois de cinco dias quando os bombeiro descia de corda os vinte metro do buraco.


O que ninguém via nem sabia era que nos lixo que padre Damião descartava no cacimbão tinha sempre dois ou três gato que caía na gatoeira do bom homem no escuro da noite. E foi assim que o padre batrizou, casou e extremunçou as pessoa da cidade durante os ano sem levantar suspeita sobre a sua inimizade com os gato. E quando Patulé virou prefeito e mandou limpar o cacimbão, contra a vontade do velho Duda, lá se encontrou as ossada de mais de quinhentos gato e vive na mente do povo que os bichano é como elefante e tem um cemitério próprio onde vai quando se aproxima a Indesejada. E é, seu moço, esse povo encontra explicação pra tudo!

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Um certo Dentinho


        Diz que Dentinho nem não morava sempre no arraial não. Era na fazenda de Bento Salles que morava até que ganhou enrabicho por Narinha de Seu Cutelo e largou de tudo só pra correr atrás da mulata. Como gente boa fala e gente ruim também, fica difícil de dizer quem boata e quem verdada, mesmo conhecendo Dentinho sim senhor. Mas circula que Dentinho não gostava muito de trabalho e Bento Salles mantinha ele por conta de uns servicinho sujo que fazia pro gaúcho de vez em quando. Coisa boba, sem muita responsabilidade, que o tal não era pra tanto assim e nem profissional de fato. As vez uma surra num empregado mais desabusado ou uma companha pra uma moça mais resistente de chegar sozinha até a porta do quarto do velho Bento. Se preciso parece que Dentinho sangrava de leve, sem muito fundo, mas não tinha nunca ordem de matar não senhor.
        Mas águas passada não move moinho e Narinha nem num sabia de nada disso e viu graça no Dentinho desde um forró que viu ele e ele piscou o olho vesgo pra ela animado. Sorte que no dia Seu Cutelo ia meio alto e olhava forte na bunda reboladeira de Joaninha de Patulé que dançava fogosa com quem pedia, senão tinha dado até morte aquela piscada. Deu que Dentinho piscou e Narinha que nem não conhecia ainda  homem nem viu que ele era feio e corria de água que nem o Diabo de cruz. Pegou amor e não teve jeito até que ela se encontrou surdinamente mais ele por perto do rio e os dois fizeram umas safadeza que ela gostou muito e sempre queria mais daí em diante todo dia.
        Afundado no amor também, o Dentinho deu até de trabalhar e largou da vida mansa na fazenda pra modo de pelejar no açude com promessa dos trocados que o governo mandava todo mês já que não podia mandar chuva não senhor. Só que a vida cansava e apagava o fogo  dele e Narinha não entendia e ia buscar fogo onde tinha. Caindo chifrudo, o Dentinho resolveu de matar Narinha mais quem galhava ele. E matou mesmo, dando sumiço do corpo coisa e tal, causando espanto no arraial e escândalo nas pessoas, porque ninguém nem não esperava que Narinha era sapatão e o pobre quando matou, matou mais mesmo de susto, quando viu Narinha gemendo nos braços de Aninha de finado Setembrino do boteco. É, seu moço, o povo arrepiou, não sabe. Aninha vendeu o boteco e tudo e sumiu-se antes do delegado prender Dentinho escondido debaixo da cama da mãe e de Padre Damião, o sacristão e o coveiro enterrar a Narinha mais a fama.


        Quando foi o julgamento do Dentinho o juiz que era mesmo Bento Salles dormiu o tempo quase todo e o júri era Patulé, Canarinho, Bostinha, Nega Fortunata de Seu Jairo, Chiquinha Zoiúda, Afonso mecânico e a Professorinha Naná. Um advogado da capital, que andava na cidade como se pisava em merda, falou bonito coisa e tal, dizendo que Narinha era mesmo vagabunda e que o pobre do Dentinho teve a vida desgraçada pela mulher e o júri pelos quatro votos dos homem contra os três das mulher absolveu  Dentinho que ganhou mundo e nunca mais ninguém viu nem ouviu dele falar.

domingo, 13 de outubro de 2013

Dislexia

Num ppael amraleado
Rbasiqeui meu hoirnozte
Com gfriate e soildão
E a prsesa de um isnatnte

Com gfriate e soildão
Rbasiqeui meu hoirnozte
Em ppael amraleado
Na prsesa de um isnatnte

Rbasiqeui meu hoirnozte
Na prsesa de um isnatnte
Em ppael amraleado

Com gfriate e soildão
Na prsesa de um isnatnte
Rbasiqeui meu hoirnozte

terça-feira, 8 de outubro de 2013

As águas de Finados


        Ele era mesmo doido e todo mundo se arrepiava se ele falava umas besteira que Deus me defenda e que tava na cara que era mesmo mentira e o descarado jurava pela alma da mãezinha dele mesmo e tudo que era fato. Só que como era doido bom, e de gentileza em gentileza fez fama de utilidade e amizade, uns até parava pra rir das lorotas e mentiradas dele, até de uma história de extraterrestre etê que levava ele nem não sabia pra onde e que lá era só luz pura e doido de cego via uns cabrinha baixo com cabeça de jiricaca que tirava o coração dele pra modo de examinar e coisa e tal.
        E assim lesado, andava os dia a mangar dos estilingue dos menino, prosando que os extraterrestre etê é que tinha arma boa que nem que igual as do Buck Rogers, que dava duzentos, trezentos tiro sem bala e coisa, de modo que as esquisitice do tal se desenvolvia no largo dos dia, virando o povo a desconfiar que nele vivia o coisa ruim.
        Mas as menina gostava dele e se ria toda das safadeza que ele falava baixinho nos ouvido delas, graçando muito e até molhando as calcinha algumas de fogo mais adiantado. Ele é que nem não levava nada a sério não e dizia que gostava mesmo de mulher e homem e até da égua de seu Liquinha que pastava inocente lá na baixada, levantando orelha dos pai que até prendia as filha em casa no meio do medão danado de virar vô do demo coisa e tal.
        Foi que um dia o velho Duda queria ver o Patulé prefeito e mandou fazer ponte em cima do rio pra modo de impressionar o povo. E vieram da cidade uns homem de capacete que construíram a tal de ponte muito alta que dava medo de cair gente e burro e até carro corredor. E quando tava pronta o danado dizia que pulava da ponte, mas o povo ria muito porque sabia que ele nem não pulava porque se pulava morria mesmo na hora.
        Passa que lá pelos outubro deu o Patulé mais velho Duda de inaugurar a tal de ponte e o povo em festa alguns nem não subiram na ponte não senhor de medo da altura. Só o danado sentou no parapeito  com os pé pra fora e falou pro Pedro Lenhador que se chovia ele pulava mesmo e o povo quando ouvia ria dele de novo. Só o Catatau matutou que ele sempre foi lesado mesmo e que dava pra entrar algum e abriu as aposta e logo metade do povo apostava que ele era doido e pulava e a outra metade apostava que era bravata e todo mundo esperava chuva pra tirar os nove. Passa que o sol era teimoso e parecia que nem nos finado queria folgar.


        Mas quando os outubro ia suspirando o povo olhava pro céu com olho de chuva, porque nos finado não falhava e ninguém nem não sabia porque o toró caía. Dito e feito, seu moço. O sol que foi dia primeiro não volveu nos dois e são Pedro molhou tudo com trovoada e coisa. Animado o povo deu na ponte assim que o dia nasceu. Lá pelas nove o Catatau já se apertava com as cobrança de cinco por um que ele bancava, porque parecia que o danado nem num dava as cara, quando endoidou o povo de gritar e era ele mesmo que vinha e entrava direto no boteco do Severino e batia no balcão pedindo uma pinga da boa. Virava tudo num gole e já saindo tirando a roupa gritou pro Severino pra modo de por na conta que quando voltava pagava. Quando o povo ensaiou o primeiro pula ele nem não olhou nem nada, tirou a cueca e pulou.

domingo, 6 de outubro de 2013

O feitiço Áquila

Surdo-mudo eu
Cega te encontrei
Numa noite de reveillon

Dançamos
Beijamos
Tomamos sidra Cereser.
Mas à meia noite a decepção
Não ouvi o foguetório
Tu não viste a cor
Dos fogos de artifício

De ironias faz-se a vida:
Meu toque não foi capaz
De dar cor ao teu mundo;
Tua voz não pode

Me falar de amor!

Noturna




A noite é entrecortada pelas preces
E ecoa nela um grito transparente
Eu sigo no meu passo, molemente,
Pensando com quem mesmo te pareces.

Não falo com ninguém pra não saber
Que cada casa olha triste a rua.
Um galo canta, a noite já recua
- O dia se prepara pra nascer.

Nos pontos se aglomeram os ofícios
Do velho labutar madrugador
De lutas, de suor, de sacrifícios

E eu transponho tonto o portão
Jogando sobre a cama a minha dor
Rezando pra sonhar um sonho bom

A valentia do cabo Zeca

            Cabo Zeca cresceu e ganhou fama prendendo os irmão Ferrinho, que roubava gado e era liso que nem que cobra d’água sim senhor. Foi num janeiro de sol que Deus mandava e o Diabo aumentava, quando ia cardo o capim ralo e os boi andava no osso puro. Caído no zói grande ou na necessidade, porque dinheiro de roubo diz que é maldito e dura pouco, os irmão Ferrinho lá ia tocando uma boiada com a marca do coronel Ramiro, deixando o rastro dos animal que morria, e cabo Zeca mais a volante atrás. Dois dia antes do açude cabo Zeca avistou os meliante e, deixando o dia ir embora, botou ferro em todo mundo e fez caminho de volta.
            Nas graça do coronel Ramiro, cabo Zeca entrou no partido do governo e no gosto do povo, que esqueceu até das senvergonhices de Carminha Couro-Duro, mulher do cabo que andava com todo mundo reclamando que na cidade nem não tinha homem e que andando com todo mundo ainda era moça, virou logo vereador mais votado. Mas na preguiça do sol queria muito trabalho não, de modo que nem não aceitou a presidência da Câmara, vendendo o direito pro coronel Bira pra comprar logo uma fazendinha.
            Uns dois ano labutou Cabo Zeca contra a seca e as pedra pra criar umas mil cabra naquela secura. Sorte foi que conseguiu o desvio de um fio d’água passando pela fazendinha a troco de um voto de aprovação das conta do prefeito. Depois disso tudo verdou e até as galinha crescia bonito e botava direitinho no quintal. O leite virava logo queijo e um cabrinha vigiava pra modo dos peão não desviar nem um litro pros filho. E os queijo que Carminha Couro-duro fazia logo ficava conhecido e famoso. Até na capital quem podia pagar bem comprava com gosto os queijo, menos o governador, que este toda semana recebia duas peça de presente.


            Mas cabo Zeca mesmo rico era homem de polícia e de nenhum luxo nem não gostava. Usava sempre a farda surrada e preferia a charrete que o automóvel, que ficava sempre disposto pras saídas de Carminha Couro-duro. Aliás, a mulher andava feliz e já nem não reclamava de nada, visitando duas ou três vez por semana um dentista na cidade vizinha e fazendo compra daquelas porcaria bonita que nem não vale nada e as mulher adora. Tudo ia em paz e o homem ficando melhor na vida, até que Carminha Couro-duro pegou barriga num dia e uma emboscada  logo junto. Como o cabo chorava no enterro, o povo e o delegado dava o crime por misteriosos e o mistério por sem solução. O promotor Cajazeira até que queria mexer no trem, só que o juiz Bento Salles acreditava no coronel Ramiro quando ele dizia que a Carminha Couro-duro andava triste e tudo e que era capaz mesmo que se matava com cinco tiros coisa e tal. E tudo se acabou assim, seu moço. Quer dizer, continuou assim, porque se as coisa começa pra terminar, também é muito certo que as vez acaba pra principiar de novo. E é. Assim é que foi. Cabo Zeca casou de novo e podia até ir à igreja agora todo domingo de manhã pegando no braço com a mulher. Um ano mais tarde nasceu o filho do casal, um pouquinho antes da eleição de Patulé pra prefeito. Bem, isso é outra história, seu moço.

Ecos da paisagem marejando na moldura

            
            Desde que a mãe comprara a tela, ele mantinha com a obra uma relação de desconfiança, ainda que não soubesse bem explicar o porquê. De toda maneira, aquele painel enorme, medindo algo como três metros e meio por dois, assustava-o ao mesmo tempo em que exercia nele um fascínio inexplicável. Parecia um ser vivo, retribuindo olhares, refletindo gestos e ecoando palavras. Mas nunca tivera coragem de se aproximar muito, talvez por medo de que de trás do junco que ladeava a fonte saltasse o dono daqueles olhos que o olhavam; ou, quem sabe, temendo que uma das crianças pudesse puxá-lo pelo braço e que a pintura viesse a engoli-lo.
            Naquela noite a tela parecia-lhe mais aterrorizante. Os meninos pareciam dançar uma dança diferente e um olhava-o com ódio, expressão assassina e movimentos suspeitos. Ademais, podia perceber com nitidez uma figura monstruosa escondida sob o junco que ladeava a fonte. A mãe saíra com o novo namorado, um gerente de banco muito chato que viera apanhá-la em um carro igual àqueles que ele gostava de ver nos filmes, e Guacira aproveitara para dormir mais cedo na ausência da patroa.
            Na sala enorme, vazia de gente e de censuras, começara a montar o ferrorama sobre o tapete macio que a mãe dizia estar cheio de aspa... apa... não: ácaros! Esquecera um pouco do quadro, divertindo-se com os movimentos repetitivos do trenzinho. Fazia algumas manobras mais ousadas, quando percebeu que junto com o barulho irritante do brinquedo misturavam-se vozes de crianças, que aumentavam de intensidade e se aproximavam rapidamente.

***

            Helena retirou mais uma vez os óculos escuros e enxugou as lágrimas. Os soluços de choro que se esforçava para controlar voltavam insistentemente. Ela ainda não acreditava no que estava acontecendo. Relembrava tudo como se fosse um sonho ruim. A imagem do filho degolado sobre o sofá, perfurado por inúmeros golpes, mergulhado em uma poça de sangue, os olhos revirados, a boca entreaberta, totalmente sem cor, ecoava na mente.
            A morte, que sempre fora para Helena um fantasma mais ou menos distante, quase inofensivo, incapaz de toca-la ou ao seus, agora abraçava-a com a violência de um estupro e o caixãozinho que descia à cova levava para a terra fria o tesouro que por egoísmo e desleixo, por absoluta futilidade, acabara por perder.
            O som da terra batendo sobre o caixão do filho enlouquecera a mãe e ela gritava histericamente, amaldiçoando a empregada que acolhera como pessoa da família e que tivera a coragem de assassinar-lhe tão brutalmente o filho. Em que mundo estavam afinal que não se punia com a morte alguém capaz de um ato tão hediondo? Se fosse adulto ainda. Uma pessoa adulta tem como se defender, mas uma criança! Também não desconfiara da mulher por quê? Por que não ficara em casa em vez de sair com aquele pulha do Germano Assunção e suas conversas sobre aplicações rentáveis?! Por que não cuidara melhor do filho? Todas essas indagações inundavam sua mente e vinham ao mundo na forma de gritos desesperados entrecortados por soluços delirantes e incontidos, até que tomou-a uma vertigem e tudo escureceu.

***
            - Fale novamente como aconteceu: por que você matou o menino?
            - Doutor, já disse que não matei o garoto! Foram os meninos do quadro...
            - Que quadro?
            - O quadro, doutor, já disse!
            - Deixe de besteiras, nós sabemos que foi você! Confesse que será melhor...
            - Já disse que não fui eu! Foram os meninos do quadro.
            - Quadros são imagens e imagens não saem Poe aí matando as pessoas. Pare de se fazer de louca que isso não vai funcionar!
            - Eu não estou louca, doutor! Sempre soube que havia algo de maligno naquele quadro. Até conversei com o pastor, mas ele me disse que era impressão minha e que essas coisas não existem. Mas eu digo que a maldade mora naquele quadro!
            - Olha que estou perdendo a paciência! – gritou o delegado, quebrando a caneta que tinha na mão.
            - Eu juro, doutor. Olhe o senhor mesmo! Parece que tem alguém dentro daquele quadro olhando a gente, vigiando, ameaçando, esperando o momento para dar o bote... todo mundo naquela casa corre perigo. O senhor precisa acreditar em mim!
            O delegado estava pronto para objetar alguma coisa, mas o telefone tocou e teve que atender. E à medida que ouvia, suas feições foram se transformando. Havia um grande espanto estampado em seu rosto quando desligou o telefone.
            - Aconteceu de novo, não é? – Indagou Guacira, com voz calma.
            - Vou precisar da senhora – disse o policial à velha, depois de algum tempo pensando.

***

            Voltar àquela casa deixava Guacira nervosa. Logo ao entrar, se deparou com o enorme painel no fundo da sala. Deixou a porta aberta e foi entrando devagar, observando o movimento das crianças fixado na tela. Teve a mesma impressão que sempre tinha quando olhava a pintura e um arrepio estranho cortou-lhe o corpo. Os meninos pareciam dançar uma dança diferente e um olhava-a com ódio, expressão assassina e movimentos suspeitos. Ademais, podia perceber com nitidez uma figura monstruosa escondida sob o junco que ladeava a fonte.
            Depois de algum tempo olhando a obra de arte, Guacira sentia-se cansada e amedrontada. Seguiu até o sofá e sentou-se nele de costas para  o quadro. Recordava as cenas da morte tanto do menino quanto da mãe e sentia uma corrente fria cortando a casa. De repente teve a impressão de ouvir um barulho estranho, algo como o som do toque dos pés de alguém que feria o chão após saltar de uma determinada altura. Não teve coragem de se virar para conferir se era algo real ou se se tratava de uma criação de sua imaginação. Ficou assim, congelada, esperando, ouvindo passos que se aproximavam dela pelas costas, devagar, bem devagar. E logo sentiu a pessoa perto, tão perto que era capaz de ouvir sua respiração. Sentiu que ia explodir e gritar, pedir socorro, mas ouviu o estampido de um tiro e não conseguiu se mover por algum tempo.
            - Você tinha razão – ouviu a voz do delegado dizer depois de alguns instantes, e quando olhou para ele, viu que tinha na mão o revólver de onde partira o disparo. – Olhe! – complementou o policial, apontando para o quadro.
            Guacira sentiu algo estranho quando olhou para o quadro. Pensou que iria desmaiar, mas resistiu e fixou bem a tela. Só que desta vez dos quatro meninos de outrora, que brincavam de roda, via apenas três brincando, ao lado dos quais havia um quarto caído em uma poça de sangue, com a marca inequívoca de um tiro que o atingira bem no meio da testa. Contudo, a cena ficara leve e os meninos tinham um quê de inocência na nova versão, como se o toque maligno do quadro tivesse desaparecido num passe de mágica.
            Ao fim de cinco minutos, Guacira virou-se para o delegado, deu-lhe o braço para que enlaçasse e saíram ambos da casa.


            - Só quero ver como vou explicar na chefatura que gastei uma bala atirando em uma pintura – brincou o delegado, enquanto abria a porta  do carro para que Guacira entrasse.

O fotógrafo


            Pobres criaturas é o que somos. Bem que tentamos parecer melhores em nossas filosofias e religiões, mas é tudo em vão. Perdoar, esquecer, dar a outra face, ser superior... civilidade! Qual! Tudo isso é até retoricamente bonito, tanto quanto tolo. Vivemos é de nossas mágoas, respiramos nossas paixões e digerimos nossos ódios. Ideologias e leis podem mascarar essas forças, entretanto nada pode deter sua força.
            Circulam, principalmente entre os mais pios, lendas e histórias que tratam do inexplicável. É talvez uma defesa dos que, presos à ignorância, procuram explicar sem a ciência aquilo que mesmo com ela parece difícil.
            As cobras têm lugar de relevo no imaginário popular, talvez pela relevância da maldição bíblica. Uma dessas construções mentais acerca das cobras, longe dos dados estatísticos ou do rigor metodológico, mas antes focado nos mistérios ou na subjetividade da oralidade, dá conta de que o réptil vive em sua peçonha para se vingar daqueles que o molestam.
            Certa feita um senhor narrou-me a ocorrência de um incidente em que a cobra aguardara por sete longos anos o retorno de seu agressor para se vingar. Sem comer ou beber, permanecera no exato lugar em que fora ferida, afinando o corpo até a espessura de um cipó, alimentando-se tão somente da mágoa e do desejo de vingança. Seu veneno refinara-se em letalidade e, quando alcançou seu objeto, matou-o em instantes.
            Esses causos a respeito das cobras sempre me fizeram refletir sobre o seu parentesco com os humanos, seu liame de Éden, seu entrelaçamento no tempo e no espaço. E não é tanto pela máxima da maldição divina em si, apesar de seu eco do Jardim para todo o sempre, porque não sou tão criacionista assim, além de pouco saber sobre cobras; também não sou teólogo, e para estes deixo as digressões e devaneios acerca dessa curiosa tese. Minha matéria é esse objeto abundante que viceja nas ruas e se enclausura nas casas e que se chama ser humano. Em sua riqueza mórbida é que pude perceber que, medida de todas as coisas, o homem não sabe – e creio que nem deveria saber mesmo – falar de outra coisa que não de si.
            Minha galeria está cheia de histórias. Onde há gente, há conflito; e onde há conflito, há sempre muita história. A maioria em branco e preto, mas algumas em vivas cores, as minhas fotos contam histórias de tragédias e mágoas. Daí a minha teoria: o medo que o homem tem das cobras nada tem de relação com o frágil réptil, que não resiste a algumas pauladas bem colocadas, mas com sua metáfora, com o medo que tem da própria capacidade de ferir, de magoar e de vingar tudo aquilo que precisa ser vingado. Meu coração, todos os corações, precisam sentir o conforto da vingança, porque a vida não anda se estamos parados em um ponto, esperando, titubeando entre a coragem e a covardia. Toda história que estaciona no clímax, e ali se congela para não sacrificar o vilão, clama pelo desfecho, pela vingança do herói e do leitor, pela purgação da maldade, pelo ancestral desejo do sacrifício.

***
            Cobri, sei lá quanto tempo faz, talvez quinze ou vinte anos, um terremoto que arrasou uma pequena cidade. As informações eram desencontradas e o local era curiosamente muito distante das áreas com tradição de movimentos sísmicos. Ainda assim, foi uma tragédia. Poucos moradores sobreviveram e entre estes a maioria estava fora da cidade quando a desgraça se deu.
            O choro de quem viveu, procurando os amigos e familiares entre os escombros, era de cortar o coração. Os bombeiros tinham muitas vezes que interromper os trabalhos de uma desesperançada busca por sobreviventes para atender a histeria dos mais exaltados.
            Não havia no lugar choro de crianças ou corpos estendidos pelas ruas como ocorre nas guerras. Não havia nem rua, nem lugar, nem nada que lembrasse a arte ou o gênio humano. É que os inúmeros lagos para piscicultura que povoam o lugar se romperam e cobriram os escombros com uma camada espessa de lama. Aliás, ouvi um homem comentando que a cidade deixava transparecer depois da tragédia o que sempre fora: um mar de lama.
            Aquele comentário, feito assim com aquela mágoa, de si para si, chamou minha atenção para o homem. Passei a segui-lo, observando que ele parecia ter um itinerário definido. Não tardou muito e ele percebeu minha companhia.
            - Se quer um guia vai ter que pagar. Cinqüenta por dia mais despesas.
            - Parece que você procura alguma coisa, estou certo?
            - Não é da sua conta! Ou paga ou dá o fora!

***
            Com a noite a paisagem parecia ainda mais deprimente. Os faróis espantavam a escuridão com uma má vontade incrível. Ainda bem! Ver não ajudava nada ali, mesmo para quem, como eu, precisava ter nos olhos o sentido mais aguçado. Contudo, o que me incomodava mesmo era aquele passageiro silencioso, olhar fixo na estrada.
            - Então, você é guia de turismo?
            - É... Há turista pra tudo, até mesmo pra desgraça. Está aí o senhor que não me deixa mentir...
            - Não estou a passeio, sou fotógrafo! – ponderei, subitamente irritado com a observação provocativa.
            - Pouco me importa! Turista, geólogo, puta, fotógrafo... por mim não importa. Estamos chegando. Que tipo de acomodação quer? Se quiser mulher, posso providenciar.
            Foi uma noite longa. Preferia sinceramente não ter pernoitado ali. . Mas fazer o quê se o sol não aparecera por todo o dia. Eu não queria fotos com luz artificial. A cena merecia luz natural e um dia a mais de espera não faria diferença.
            Não estava ali pra me divertir, motivo pelo qual recusara a prostituta. Só que a insônia e o avançar da hora encheram-me de tédio e decidi descer ao bar para tomar um cointreau, ou dois, talvez. Meu guia estava lá, sentado solitário em um canto, olhando o movimento, bebericando uma cerveja sem muita vontade. Usava os mesmos óculos escuros com que o vira durante todo o dia e até que me apartara dele, rabiscando algo em uma folha amarelada com um lápis. Nem percebia as pessoas que passavam por ele e o cumprimentavam.
- E aí, alguma coisa?
Ele olhou para o garçom e meneou a cabeça negativamente, voltando a riscar o papel. Pelos movimentos, parecia desenhar um mapa ou algo assim.
- Talvez amanhã...

***
O dia estava muito bom para fotografar, céu claro, sem nuvens. Um pouco quente é verdade, mas as condições de luz eram as melhores. Os bombeiros desenterravam cada vez mais corpos e o cheiro do lugar era cada vez pior.
Seguindo seu mapa rabiscado no papel, meu guia traçava seu rumo, esperando-me pacientemente durante minhas paradas para fotografar. Não falava nada rabiscando algo em uma folha amarelada com um l e eu não perguntava, respeitando seu silêncio. No fundo mesmo, eu sabia que nem precisava de guia, contratara-o mais pela história que pressentia nele e da qual queria me beneficiar. Acho que ele sabia disso, mas não ligava.
            Quando eram mais ou menos duas da tarde, reclamei de fome, sugerindo que voltássemos. Imediatamente o guia retirou da mochila enorme que trazia, frutas, sanduíches e refrigerantes.
            - Pode comer! – disse – Chegamos! Meu trabalho começa agora.
            Enquanto comia, vi que ele começava a revolver os escombros daquilo que parecia ser uma casa. Carregava enormes pedaços de madeira, pedras, entulho de todo tipo. Em determinado momento tive a impressão de divisar um sorriso em seu rosto. Curioso, caminhei em sua direção, mastigando um frio de presunto com pão e queijo. Ele estava imóvel, olhando fixamente um corpo inchado e com os olhos estufados que começava a aparecer entre os escombros.
            - É ela! – Gritou, olhando pra mim com os olhos de um bicho.
            A cena que vi depois é difícil de se crer e, mesmo eu, que a vi acontecer, preciso me fiar nas fotos que fiz para acreditá-la real. Rindo um riso demoníaco, soluçante, o homem parecia possuído, retirando com descomunal força tudo o que encobria o corpo. Seus movimentos eram irregulares e seu corpo inteiro tremia como que convulso. Os olhos perderam o brilho e o movimento, deixando transparecer algo maligno. Por fim, pegou o cadáver pelos cabelos e arrastou-o até um determinado ponto. Ali, chutou-o enquanto teve vontade, xingando palavrões horríveis e gritando coisas impossíveis de se entender.
            Em determinado momento pareceu cansar. Pôs o pé direito no pescoço do cadáver e apertou até que ouvi o barulho dos ossos se partindo. Ria e chorava ao mesmo tempo. Então começou a gritar e a balançar os braços e, quando terminou, olhou fixamente para o cadáver e sussurrou:
            - Maldita! Eu ainda estou vivo. Graças a Deus! Eu vivi para te ver aí, morta e apodrecendo...
            Fez uma breve pausa e depois, ofegante, continuou:
            - Você sempre teve medo de ser enterrada. Deus é grande e te enterrou viva!

***

            Quando recebi o prêmio pelas fotos, consegui mais que estabilidade financeira e reconhecimento profissional. Na verdade, tive ali o mote para a temática da minha vida. E, se por exigência do editor, falei duas ou três palavras esperançosas sobre a profissão, percebi logo que são o ódio, a destruição e a dor a minha matéria-prima.
            Comecei a perder minhas esperanças com aquele homem e terminei por perdê-la completamente com os tantos prêmios que recebi por mostrar tão bem a miséria humana. Agora que é chegada a minha hora, parto porque tenho certeza de que nada mais há por ser feito em um mundo que prega a esperança, mas que só premia mesmo são as fotos da miséria e dos desastres.


            Será que a foto da minha cabeça inchada e varada pela bala derradeira vai render prêmio para alguém? Muito provavelmente não! Há muitos conflitos sangrentos e tragédias pelo mundo atualmente. Mas como existe a chance desse ser um dia de poucos acontecimentos, e sabendo que os jornais precisam vender, talvez eu ainda consiga a primeira página uma última vez...

sexta-feira, 26 de julho de 2013

A ARTE DE PESCAR

Outro dia a Baía de Vitória recebeu um cardume de Lactophrys trigonus Linnaeus, vulgarmente denominado baiacu, peixe muito apreciado na mesa do capixaba. Logo surgiu uma legião de pescadores, subitamente entendidos na arte de apanhar o pescado e, mais ainda, na de transformá-lo em moqueca. Ali na Ilha do Boi, próximo ao  Village de Lilly, contaram-me que se apanhou mais de cem baiacus em uma única manhã.  E Vitória reencontrou-se com sua gênese ictiófaga, cultuando a carne saborosa e sem espinhas do melhor pescado que nada sob as águas do Atlântico.
Não tenho paciência ou técnica para a pescaria. Nasci lá no alto das montanhas e gastei a meninice apanhando pequenos lambaris nos córregos de água cristalina de outrora. Mas devo confessar que  invejo aqueles homens da beira mar. Nem tanto por sua destreza na captura do baiacu. Invejo neles é a fé Alguns eu vi vasculharem o mar por meses sem fisgar um único peixe. Vinham assim mesmo todas as manhãs, carregando suas caixas, suas varas de pesca e sua esperança. Sabiam que dias melhores viriam!
Em tempos de desesperança, quando ouvimos já  aqui e ali soarem as trombetas dos apocalípticos, com a mídia divulgando catástrofes naturais e pragas, histórias de pais que estupram filhas e de filhos que matam os pais por ganância ou por não conseguir tirar deles dinheiro para comprar drogas, qualquer raio de esperança em dias melhores mostra que nem tudo está perdido.

Graças a Deus ainda há pescadores nesse mundo! Quem sabe ainda não haja tempo para pescar os valores que perdemos nessa caminhada nem tão longa que é a jornada humana sobre o planeta. Dia Após dia, cultivaremos então o oceano da manhã na esperança de que venha bater nele um cardume de Tolerância. E quando isto finalmente acontecer, pescaremos com alegria, para montar uma moqueca temperada com sentimentos antes esquecidos. Hoje é o dia perfeito para começar a pescar!