domingo, 6 de outubro de 2013

Ecos da paisagem marejando na moldura

            
            Desde que a mãe comprara a tela, ele mantinha com a obra uma relação de desconfiança, ainda que não soubesse bem explicar o porquê. De toda maneira, aquele painel enorme, medindo algo como três metros e meio por dois, assustava-o ao mesmo tempo em que exercia nele um fascínio inexplicável. Parecia um ser vivo, retribuindo olhares, refletindo gestos e ecoando palavras. Mas nunca tivera coragem de se aproximar muito, talvez por medo de que de trás do junco que ladeava a fonte saltasse o dono daqueles olhos que o olhavam; ou, quem sabe, temendo que uma das crianças pudesse puxá-lo pelo braço e que a pintura viesse a engoli-lo.
            Naquela noite a tela parecia-lhe mais aterrorizante. Os meninos pareciam dançar uma dança diferente e um olhava-o com ódio, expressão assassina e movimentos suspeitos. Ademais, podia perceber com nitidez uma figura monstruosa escondida sob o junco que ladeava a fonte. A mãe saíra com o novo namorado, um gerente de banco muito chato que viera apanhá-la em um carro igual àqueles que ele gostava de ver nos filmes, e Guacira aproveitara para dormir mais cedo na ausência da patroa.
            Na sala enorme, vazia de gente e de censuras, começara a montar o ferrorama sobre o tapete macio que a mãe dizia estar cheio de aspa... apa... não: ácaros! Esquecera um pouco do quadro, divertindo-se com os movimentos repetitivos do trenzinho. Fazia algumas manobras mais ousadas, quando percebeu que junto com o barulho irritante do brinquedo misturavam-se vozes de crianças, que aumentavam de intensidade e se aproximavam rapidamente.

***

            Helena retirou mais uma vez os óculos escuros e enxugou as lágrimas. Os soluços de choro que se esforçava para controlar voltavam insistentemente. Ela ainda não acreditava no que estava acontecendo. Relembrava tudo como se fosse um sonho ruim. A imagem do filho degolado sobre o sofá, perfurado por inúmeros golpes, mergulhado em uma poça de sangue, os olhos revirados, a boca entreaberta, totalmente sem cor, ecoava na mente.
            A morte, que sempre fora para Helena um fantasma mais ou menos distante, quase inofensivo, incapaz de toca-la ou ao seus, agora abraçava-a com a violência de um estupro e o caixãozinho que descia à cova levava para a terra fria o tesouro que por egoísmo e desleixo, por absoluta futilidade, acabara por perder.
            O som da terra batendo sobre o caixão do filho enlouquecera a mãe e ela gritava histericamente, amaldiçoando a empregada que acolhera como pessoa da família e que tivera a coragem de assassinar-lhe tão brutalmente o filho. Em que mundo estavam afinal que não se punia com a morte alguém capaz de um ato tão hediondo? Se fosse adulto ainda. Uma pessoa adulta tem como se defender, mas uma criança! Também não desconfiara da mulher por quê? Por que não ficara em casa em vez de sair com aquele pulha do Germano Assunção e suas conversas sobre aplicações rentáveis?! Por que não cuidara melhor do filho? Todas essas indagações inundavam sua mente e vinham ao mundo na forma de gritos desesperados entrecortados por soluços delirantes e incontidos, até que tomou-a uma vertigem e tudo escureceu.

***
            - Fale novamente como aconteceu: por que você matou o menino?
            - Doutor, já disse que não matei o garoto! Foram os meninos do quadro...
            - Que quadro?
            - O quadro, doutor, já disse!
            - Deixe de besteiras, nós sabemos que foi você! Confesse que será melhor...
            - Já disse que não fui eu! Foram os meninos do quadro.
            - Quadros são imagens e imagens não saem Poe aí matando as pessoas. Pare de se fazer de louca que isso não vai funcionar!
            - Eu não estou louca, doutor! Sempre soube que havia algo de maligno naquele quadro. Até conversei com o pastor, mas ele me disse que era impressão minha e que essas coisas não existem. Mas eu digo que a maldade mora naquele quadro!
            - Olha que estou perdendo a paciência! – gritou o delegado, quebrando a caneta que tinha na mão.
            - Eu juro, doutor. Olhe o senhor mesmo! Parece que tem alguém dentro daquele quadro olhando a gente, vigiando, ameaçando, esperando o momento para dar o bote... todo mundo naquela casa corre perigo. O senhor precisa acreditar em mim!
            O delegado estava pronto para objetar alguma coisa, mas o telefone tocou e teve que atender. E à medida que ouvia, suas feições foram se transformando. Havia um grande espanto estampado em seu rosto quando desligou o telefone.
            - Aconteceu de novo, não é? – Indagou Guacira, com voz calma.
            - Vou precisar da senhora – disse o policial à velha, depois de algum tempo pensando.

***

            Voltar àquela casa deixava Guacira nervosa. Logo ao entrar, se deparou com o enorme painel no fundo da sala. Deixou a porta aberta e foi entrando devagar, observando o movimento das crianças fixado na tela. Teve a mesma impressão que sempre tinha quando olhava a pintura e um arrepio estranho cortou-lhe o corpo. Os meninos pareciam dançar uma dança diferente e um olhava-a com ódio, expressão assassina e movimentos suspeitos. Ademais, podia perceber com nitidez uma figura monstruosa escondida sob o junco que ladeava a fonte.
            Depois de algum tempo olhando a obra de arte, Guacira sentia-se cansada e amedrontada. Seguiu até o sofá e sentou-se nele de costas para  o quadro. Recordava as cenas da morte tanto do menino quanto da mãe e sentia uma corrente fria cortando a casa. De repente teve a impressão de ouvir um barulho estranho, algo como o som do toque dos pés de alguém que feria o chão após saltar de uma determinada altura. Não teve coragem de se virar para conferir se era algo real ou se se tratava de uma criação de sua imaginação. Ficou assim, congelada, esperando, ouvindo passos que se aproximavam dela pelas costas, devagar, bem devagar. E logo sentiu a pessoa perto, tão perto que era capaz de ouvir sua respiração. Sentiu que ia explodir e gritar, pedir socorro, mas ouviu o estampido de um tiro e não conseguiu se mover por algum tempo.
            - Você tinha razão – ouviu a voz do delegado dizer depois de alguns instantes, e quando olhou para ele, viu que tinha na mão o revólver de onde partira o disparo. – Olhe! – complementou o policial, apontando para o quadro.
            Guacira sentiu algo estranho quando olhou para o quadro. Pensou que iria desmaiar, mas resistiu e fixou bem a tela. Só que desta vez dos quatro meninos de outrora, que brincavam de roda, via apenas três brincando, ao lado dos quais havia um quarto caído em uma poça de sangue, com a marca inequívoca de um tiro que o atingira bem no meio da testa. Contudo, a cena ficara leve e os meninos tinham um quê de inocência na nova versão, como se o toque maligno do quadro tivesse desaparecido num passe de mágica.
            Ao fim de cinco minutos, Guacira virou-se para o delegado, deu-lhe o braço para que enlaçasse e saíram ambos da casa.


            - Só quero ver como vou explicar na chefatura que gastei uma bala atirando em uma pintura – brincou o delegado, enquanto abria a porta  do carro para que Guacira entrasse.

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