domingo, 6 de outubro de 2013

O fotógrafo


            Pobres criaturas é o que somos. Bem que tentamos parecer melhores em nossas filosofias e religiões, mas é tudo em vão. Perdoar, esquecer, dar a outra face, ser superior... civilidade! Qual! Tudo isso é até retoricamente bonito, tanto quanto tolo. Vivemos é de nossas mágoas, respiramos nossas paixões e digerimos nossos ódios. Ideologias e leis podem mascarar essas forças, entretanto nada pode deter sua força.
            Circulam, principalmente entre os mais pios, lendas e histórias que tratam do inexplicável. É talvez uma defesa dos que, presos à ignorância, procuram explicar sem a ciência aquilo que mesmo com ela parece difícil.
            As cobras têm lugar de relevo no imaginário popular, talvez pela relevância da maldição bíblica. Uma dessas construções mentais acerca das cobras, longe dos dados estatísticos ou do rigor metodológico, mas antes focado nos mistérios ou na subjetividade da oralidade, dá conta de que o réptil vive em sua peçonha para se vingar daqueles que o molestam.
            Certa feita um senhor narrou-me a ocorrência de um incidente em que a cobra aguardara por sete longos anos o retorno de seu agressor para se vingar. Sem comer ou beber, permanecera no exato lugar em que fora ferida, afinando o corpo até a espessura de um cipó, alimentando-se tão somente da mágoa e do desejo de vingança. Seu veneno refinara-se em letalidade e, quando alcançou seu objeto, matou-o em instantes.
            Esses causos a respeito das cobras sempre me fizeram refletir sobre o seu parentesco com os humanos, seu liame de Éden, seu entrelaçamento no tempo e no espaço. E não é tanto pela máxima da maldição divina em si, apesar de seu eco do Jardim para todo o sempre, porque não sou tão criacionista assim, além de pouco saber sobre cobras; também não sou teólogo, e para estes deixo as digressões e devaneios acerca dessa curiosa tese. Minha matéria é esse objeto abundante que viceja nas ruas e se enclausura nas casas e que se chama ser humano. Em sua riqueza mórbida é que pude perceber que, medida de todas as coisas, o homem não sabe – e creio que nem deveria saber mesmo – falar de outra coisa que não de si.
            Minha galeria está cheia de histórias. Onde há gente, há conflito; e onde há conflito, há sempre muita história. A maioria em branco e preto, mas algumas em vivas cores, as minhas fotos contam histórias de tragédias e mágoas. Daí a minha teoria: o medo que o homem tem das cobras nada tem de relação com o frágil réptil, que não resiste a algumas pauladas bem colocadas, mas com sua metáfora, com o medo que tem da própria capacidade de ferir, de magoar e de vingar tudo aquilo que precisa ser vingado. Meu coração, todos os corações, precisam sentir o conforto da vingança, porque a vida não anda se estamos parados em um ponto, esperando, titubeando entre a coragem e a covardia. Toda história que estaciona no clímax, e ali se congela para não sacrificar o vilão, clama pelo desfecho, pela vingança do herói e do leitor, pela purgação da maldade, pelo ancestral desejo do sacrifício.

***
            Cobri, sei lá quanto tempo faz, talvez quinze ou vinte anos, um terremoto que arrasou uma pequena cidade. As informações eram desencontradas e o local era curiosamente muito distante das áreas com tradição de movimentos sísmicos. Ainda assim, foi uma tragédia. Poucos moradores sobreviveram e entre estes a maioria estava fora da cidade quando a desgraça se deu.
            O choro de quem viveu, procurando os amigos e familiares entre os escombros, era de cortar o coração. Os bombeiros tinham muitas vezes que interromper os trabalhos de uma desesperançada busca por sobreviventes para atender a histeria dos mais exaltados.
            Não havia no lugar choro de crianças ou corpos estendidos pelas ruas como ocorre nas guerras. Não havia nem rua, nem lugar, nem nada que lembrasse a arte ou o gênio humano. É que os inúmeros lagos para piscicultura que povoam o lugar se romperam e cobriram os escombros com uma camada espessa de lama. Aliás, ouvi um homem comentando que a cidade deixava transparecer depois da tragédia o que sempre fora: um mar de lama.
            Aquele comentário, feito assim com aquela mágoa, de si para si, chamou minha atenção para o homem. Passei a segui-lo, observando que ele parecia ter um itinerário definido. Não tardou muito e ele percebeu minha companhia.
            - Se quer um guia vai ter que pagar. Cinqüenta por dia mais despesas.
            - Parece que você procura alguma coisa, estou certo?
            - Não é da sua conta! Ou paga ou dá o fora!

***
            Com a noite a paisagem parecia ainda mais deprimente. Os faróis espantavam a escuridão com uma má vontade incrível. Ainda bem! Ver não ajudava nada ali, mesmo para quem, como eu, precisava ter nos olhos o sentido mais aguçado. Contudo, o que me incomodava mesmo era aquele passageiro silencioso, olhar fixo na estrada.
            - Então, você é guia de turismo?
            - É... Há turista pra tudo, até mesmo pra desgraça. Está aí o senhor que não me deixa mentir...
            - Não estou a passeio, sou fotógrafo! – ponderei, subitamente irritado com a observação provocativa.
            - Pouco me importa! Turista, geólogo, puta, fotógrafo... por mim não importa. Estamos chegando. Que tipo de acomodação quer? Se quiser mulher, posso providenciar.
            Foi uma noite longa. Preferia sinceramente não ter pernoitado ali. . Mas fazer o quê se o sol não aparecera por todo o dia. Eu não queria fotos com luz artificial. A cena merecia luz natural e um dia a mais de espera não faria diferença.
            Não estava ali pra me divertir, motivo pelo qual recusara a prostituta. Só que a insônia e o avançar da hora encheram-me de tédio e decidi descer ao bar para tomar um cointreau, ou dois, talvez. Meu guia estava lá, sentado solitário em um canto, olhando o movimento, bebericando uma cerveja sem muita vontade. Usava os mesmos óculos escuros com que o vira durante todo o dia e até que me apartara dele, rabiscando algo em uma folha amarelada com um lápis. Nem percebia as pessoas que passavam por ele e o cumprimentavam.
- E aí, alguma coisa?
Ele olhou para o garçom e meneou a cabeça negativamente, voltando a riscar o papel. Pelos movimentos, parecia desenhar um mapa ou algo assim.
- Talvez amanhã...

***
O dia estava muito bom para fotografar, céu claro, sem nuvens. Um pouco quente é verdade, mas as condições de luz eram as melhores. Os bombeiros desenterravam cada vez mais corpos e o cheiro do lugar era cada vez pior.
Seguindo seu mapa rabiscado no papel, meu guia traçava seu rumo, esperando-me pacientemente durante minhas paradas para fotografar. Não falava nada rabiscando algo em uma folha amarelada com um l e eu não perguntava, respeitando seu silêncio. No fundo mesmo, eu sabia que nem precisava de guia, contratara-o mais pela história que pressentia nele e da qual queria me beneficiar. Acho que ele sabia disso, mas não ligava.
            Quando eram mais ou menos duas da tarde, reclamei de fome, sugerindo que voltássemos. Imediatamente o guia retirou da mochila enorme que trazia, frutas, sanduíches e refrigerantes.
            - Pode comer! – disse – Chegamos! Meu trabalho começa agora.
            Enquanto comia, vi que ele começava a revolver os escombros daquilo que parecia ser uma casa. Carregava enormes pedaços de madeira, pedras, entulho de todo tipo. Em determinado momento tive a impressão de divisar um sorriso em seu rosto. Curioso, caminhei em sua direção, mastigando um frio de presunto com pão e queijo. Ele estava imóvel, olhando fixamente um corpo inchado e com os olhos estufados que começava a aparecer entre os escombros.
            - É ela! – Gritou, olhando pra mim com os olhos de um bicho.
            A cena que vi depois é difícil de se crer e, mesmo eu, que a vi acontecer, preciso me fiar nas fotos que fiz para acreditá-la real. Rindo um riso demoníaco, soluçante, o homem parecia possuído, retirando com descomunal força tudo o que encobria o corpo. Seus movimentos eram irregulares e seu corpo inteiro tremia como que convulso. Os olhos perderam o brilho e o movimento, deixando transparecer algo maligno. Por fim, pegou o cadáver pelos cabelos e arrastou-o até um determinado ponto. Ali, chutou-o enquanto teve vontade, xingando palavrões horríveis e gritando coisas impossíveis de se entender.
            Em determinado momento pareceu cansar. Pôs o pé direito no pescoço do cadáver e apertou até que ouvi o barulho dos ossos se partindo. Ria e chorava ao mesmo tempo. Então começou a gritar e a balançar os braços e, quando terminou, olhou fixamente para o cadáver e sussurrou:
            - Maldita! Eu ainda estou vivo. Graças a Deus! Eu vivi para te ver aí, morta e apodrecendo...
            Fez uma breve pausa e depois, ofegante, continuou:
            - Você sempre teve medo de ser enterrada. Deus é grande e te enterrou viva!

***

            Quando recebi o prêmio pelas fotos, consegui mais que estabilidade financeira e reconhecimento profissional. Na verdade, tive ali o mote para a temática da minha vida. E, se por exigência do editor, falei duas ou três palavras esperançosas sobre a profissão, percebi logo que são o ódio, a destruição e a dor a minha matéria-prima.
            Comecei a perder minhas esperanças com aquele homem e terminei por perdê-la completamente com os tantos prêmios que recebi por mostrar tão bem a miséria humana. Agora que é chegada a minha hora, parto porque tenho certeza de que nada mais há por ser feito em um mundo que prega a esperança, mas que só premia mesmo são as fotos da miséria e dos desastres.


            Será que a foto da minha cabeça inchada e varada pela bala derradeira vai render prêmio para alguém? Muito provavelmente não! Há muitos conflitos sangrentos e tragédias pelo mundo atualmente. Mas como existe a chance desse ser um dia de poucos acontecimentos, e sabendo que os jornais precisam vender, talvez eu ainda consiga a primeira página uma última vez...

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