sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A arte de pescar

Outro dia a Baía de Vitória recebeu um cardume de Lactophrys trigonus Linnaeus, vulgarmente denominado baiacu, peixe muito apreciado na mesa do capixaba. Logo surgiu uma legião de pescadores, subitamente entendidos na arte de apanhar o pescado e, mais ainda, na de transformá-lo em moqueca. Ali na Ilha do Boi, próximo ao  Village de Lilly, contaram-me que se apanhou mais de cem baiacus em uma única manhã.  E Vitória reencontrou-se com sua gênese ictiófaga, cultuando a carne saborosa e sem espinhas do melhor pescado que nada sob as águas do Atlântico.
Não tenho paciência ou técnica para a pescaria. Nasci lá no alto das montanhas e gastei a meninice apanhando pequenos lambaris nos córregos de água cristalina de outrora. Mas devo confessar que  invejo aqueles homens da beira mar. Nem tanto por sua destreza na captura do baiacu. Invejo neles é a fé Alguns eu vi vasculharem o mar por meses sem fisgar um único peixe. Vinham assim mesmo todas as manhãs, carregando suas caixas, suas varas de pesca e sua esperança. Sabiam que dias melhores viriam!
Em tempos de desesperança, quando ouvimos já  aqui e ali soarem as trombetas dos apocalípticos, com a mídia divulgando catástrofes naturais e pragas, histórias de pais que estupram filhas e de filhos que matam os pais por ganância ou por não conseguir tirar deles dinheiro para comprar drogas, qualquer raio de esperança em dias melhores mostra que nem tudo está perdido.

Graças a Deus ainda há pescadores nesse mundo! Quem sabe ainda não haja tempo para pescar os valores que perdemos nessa caminhada nem tão longa que é a jornada humana sobre o planeta. Dia Após dia, cultivaremos então o oceano da manhã na esperança de que venha bater nele um cardume de Tolerância. E quando isto finalmente acontecer, pescaremos com alegria, para montar uma moqueca temperada com sentimentos antes esquecidos. Hoje é o dia perfeito para começar a pescar! 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

O Santo que foi e voltou rindo

        Diz que a pensão de Da Duarda sempre tava as mosca porque visitar mesmo a cidade ninguém nem não vinha não senhor. E a velha vivia mesmo era do descaramento das neta Julinha e Talita, umas menina de dezesseis anos mais ou menos que de engraçadinhas que era, divertia os homem tudo do lugar.
        E foi que num dito dia de chuva muita, que bateu na pensão Um de fora e pagou logo de vez a quinzena, vomitando que tinha negócio por ali e ficava algum tempo. Trejeitado de cidade, o Um chamava a atenção das menina, mas afastava as duas arrotando moralidade, dizendo-se religioso praticante e inimigo de uma tal de pedofilia que ninguém sabia mesmo quem era. Como freqüentava a igreja de padre Damião depois da comida e antes da dormida todo santo dia, ficou que devia ser mesmo religioso e especulava a gente que podia até ser um enviado da Santa Madre Igreja que vinha ali pra modo de espiar a conduta do padre.
        Amâncio Barbeiro foi o que falou primeiro que o Um era de bem, que cortava cabelo uma vez por semana, fazia barba todo dia e tinha conversa pouca e dinheiro bom. Falava que devia ser artista, porque perguntava sobre as igreja do lugar e os santo de casa em cada uma. Um dia trouxe até pra ele uma imagem de Nossa Senhora e dera dado dizendo gosto e amizade, desejando que a imagem ficasse ali na barbearia pra modo de abençoar os negócio e as pessoa.
        Padre Damião também ajuizava bem o Um, dizendo aqui e ali que ficava horas na igreja, desenhando num bloco os detalhe do altar barroco da capela. Aliás, esses desenho padre apurava que o Um mandava pra capital, por fax, da farmácia de Seu Dimundo. O farmacêutico negava o serviço porém, falava apenas que vendia pro Um pastilha pra garganta e uns pote de vaselina da boa, todo o estoque encalhado.
        E foi que numa quarta-feira de chuvão o Um nem não apareceu na barbearia e Amâncio Barbeiro é que primeiro deu o alarme da falta do quinhão matutino. Devia que adoecera, acrescentara explicativo, porque se não era isso ele tinha desbarbado como desbarbava todo dia. Mas logo Narinha de Seu Cutelo acusava que o Um partia de madrugada ainda juntado de mala e cuia na Kombi que vinha especial só pra modo do frete.
        Mas o quiprocó se formou foi mesmo mais meia hora depois, com Padre Amâncio doido correndo e chorando pelas rua, gritando que alguém roubava Deus e os Santo e coisa e tal jurando de excomungação e inferno aquele que tinha a covardagem de afanar na sua igreja.
        E foi, seu moço. Demorou um tempinho pra modo do povo entender que a vaselina encalhada que Seu Dimundo  empurava no Um servia mesmo era de escorregante na passagem apertada da basculeta que dos fundo dava pra dentro e pra fora da Casa de Deus.
        Apurado o fato e inventariada a roubação, padre Amâncio em pura inconformação reclamava mais da falta de um São Francisco que vinha das mão do artista aleijado e que o Um levava sem pena nem dó só deixando o buraco vazio no altar de pedição muita, rezação alguma e obrigadação quase que nenhuma. Mas foi Da Duarda, que mesmo sem perder pensão e coisa, porque o Um nisso era direito e até deixava credito quando fugissaía de madrugada, deu o tom exato do castigo, pragueando que o Um roubava a fé e que a fé se vingava, de modo que sua boca não ia aproveitar o doce, o azedo, o amargo ou o ardido que do roubo pudesse comprar.
E assim foi. Quando morria o dia chegava cabo Zeca mais a volante vomitando que Deus vencia, fechando com o santo o buraco vazio do altar, porminunciando que a Kombi velha caía num buraco de curva ali por perto da fazenda de Coronel Ramiro e matava todo mundo de dentro.
Especial missa rezava Padre Amâncio naquela noite, logo depois de Inácio pedreiro fechar com bloco e cimento o buraco da basculeta dos fundos, obrigadando as benção e aconselhando o fim das basculetas nas casa, porque o inimigo é liso e vai penentrando em qualquer abertura que deixe o crente. Foi nesse momento que, pra espantamento de todos, subiu pra cima do altar o professor Alabastro Coruja e, colocando os óculos, gritava e todo mundo prestava atenção que o santo que ía carrancudo, voltava rindo. Rindo das pecadagem do povo, completava beata Francisca de Seu Norato.

Quando o povo tocava fogo na pensão de Da Duarda, pra modo de fazer a exorcinzação completa da maldade que o Um deixava no lugar, Padre Amâncio rezachichava o Pai Nosso, pedindo pelo povo que em pecadagem nem não via os sinal naquilo tudo. Mas de qualquer maneira o sorriso do santo ficou nele assim mesmo sim senhor. Só que não ficou pra sempre não. Quando entraram batizando um filho nascido de Sarita de Tião açougueiro, que diziam frequentar terreiro de Mãe Biela, fechou de novo a cara e não ri pra ninguém não senhor. E é. Essa é a história. Tudo verdade verdadeira!

MEA CULPA

Patulé nasceu pelado
Como nasce todo mundo
Amarelo e barrigudo
Deformado, olho fundo!

Cresceu fraco o Patulé
Meio a fome e as pancadas
Educado pelo eito
Hospedado na estrada

Morreu cedo o Patulé
Sem tomar um bom sorvete
Sem carinho de mulher
Sem cimento em sua cova

Deus perdoe esse poeta
Que nunca sentiu a fome
Que nunca sangrou no eito
Que fala só de ouvir

HÉGIRA


Um galope muito estranho de cavalos
Ecoando desde a estrada do remoto
Ainda assombra quem caminha o agora

Na poeira carregada pelo vento
Vinga mais que a alguns poucos desafetos
A carcaça estúpida do tempo

Lá no céu daquele azul tão ilusório
Desenhado com pincéis quase invisíveis
Canta um pássaro armado pra viagem
Lamentando qualquer coisa que ficou

E ao largo alguns relâmpagos rutilam
Brotam nuvens carregadas de desejos
Os tambores já ecoam nos trovões
Molham homens, molham deuses... molha tudo!

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

CASO PETROBRÁS: O APETITE DAS GRANDES CORPORAÇÕES E O ESTADO ZUMBI

A Operação Lava-Jato, uma iniciativa histórica do Ministério Público executada pela Polícia Federal, lança luz sobre o labirinto de frias cavernas onde se entrecruzam as licitações de grandes obras e as empreiteiras com o Estado brasileiro e o nosso sistema político. O punhado de executivos e de proprietários das grandes empreiteiras presos mostra como os maços de dinheiros que exibem hipnotizam funcionários públicos do alto escalão da República e políticos tanto ligados ao governo como da oposição. Os nomes apresentados à justiça para responder pelos crimes de formação de cartel, fraude contratual e superfaturamento de preços de obras públicas, corrupção de funcionário público, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro, entre outros crimes, também mostram como nesta fase do capitalismo financeiro as grandes corporações se apropriam do Estado e o transformam em um zumbi que trabalha em função dos seus interesses.

Apesar de ser apenas um, entre tantos escândalos do mesmo naipe, e extremamente parecido com o Cartel do Metrô do PSDB em São Paulo, o Caso Petrobrás é emblemático, não só por estar abrigado no interior da maior empresa do país, mas principalmente por essa empresa ser uma corporação capitalista, de capital aberto, apesar do controle estatal. O cartel lesou, portanto, não só o contribuinte brasileiro, mas também o acionista anônimo que pode ter investido na companhia a partir de qualquer um dos pontos da rosa dos ventos, constituindo-se, a rigor, em um crime contra o sistema financeiro internacional. É um caso de repercussão global, com desdobramentos que devem sofrer judicialização em tribunais de vários países. Nos USA e na Holanda, aliás, já foram abertos processos para apurar a participação de empresas daqueles países no esquema, o que é de praxe para proteger o sistema. Neste tocante é bom lembrar que, apesar do engavetamento do processo em uma rede de blindagem montada na justiça brasileira, as empresas Alstom e Siemens foram punidas em seus países de origem pela participação no Cartel do Metrô do PSDB em São Paulo.

O que salta aos olhos nesse processo todo, além das cifras astronômicas que fazem surgir milionários da noite pra o dia, é o apetite do mercado capitalista diante do cliente Estado. No caso brasileiro, além de ceder mais de quarenta por cento de seu orçamento para pagar juros e rolar a dívida pública interna às hienas do mercado financeiro e dos especuladores, o Estado ainda enfrenta a voracidade das corporações, que usam o poder do dinheiro e a comodidade do sistema eleitoral baseado no financiamento privado de campanhas para fomentar a corrupção e enfraquecer a democracia. É com base nesse poder de comprar funcionários públicos graduados, e na conveniente Lei Eleitoral, que facilita às corporações capturar os políticos ainda candidatos e precisando de dinheiro para se eleger, que os agentes do Estado são transformados em verdadeiros zumbis, teleguiados pelas ordens emanadas dos interesses destas corporações. Só para ilustrar o tamanho do poder das corporações envolvidas no Caso Petrobrás, a maioria das empreiteiras que tiveram executivos ou proprietários presos contribuíram regiamente tanto campanha presidencial do governo quanto da oposição, tudo regular, dentro da Lei.
Essa captura do Estado e, muito além disto, como mostram as doações à oposição, o caráter futuro dessa operação, não deixam dúvidas sobre que de fato “manda” na República: quem tem dinheiro para comprar apoio que lhe permita ganhar as licitações bilionárias para fazer as obras ironicamente precisamos para superar o atraso estrutural do país!
A superação de cenário político tosco, onde a democracia é violentada a cada instante, demanda medidas urgentes. Extirpar do sistema eleitoral brasileira a influência nefasta do financiamento privado de campanhas é um primeiro passo importante para minimizar a promiscuidade entre os agentes do Estado e o poder do capital. O princípio basilar desse raciocínio é simples: diminuída a necessidade do potencial corrupto, diminui-se automaticamente o poder do corruptor e se quebra o círculo vicioso da corrupção. Não é tudo, lógico, porque os agentes públicos não se corrompem somente por necessidade, mas é um bom começo. Retirado o centro gravitacional do processo de corrupção no país, que é o financiamento das campanhas políticas, esse mal pode continuar a ser combatido pelas eficientes instituições brasileiras representadas pelas polícias e pelo Ministério Público.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

MUDANCISMO: O MODERNO CANTO DA SEREIA

A palavra “mudança” é um desses vocábulos recheados de valor ideológico. Por sua essência dialética, a mudança suscita sempre esperanças ou medos, porque seu principal componente é a desestabilização, o câmbio daquilo que existe por algo “diferente”. Esse “diferente” pode ser, portanto, melhor ou pior.
Ocorre que a associação midiática da mudança a um campo semântico positivo ou negativo, dentro de um jogo maniqueísta, acrescenta-lhe um juízo de valor que se multiplica de maneira veloz nas entranhas da sociedade. Portanto, dependendo dos interesses dos atores atuantes no circuito da circulação social da informação, a mudança vira algo bom ou algo mau.
No contexto atual da relação entre mídia e governo, marcado por uma relação desgastada por um ciclo de doze anos, onde os acordos já esgotaram as possibilidades de ganhos de parte a parte, onde todas as concessões já foram feitas, o negócio da informação vê na estabilidade um empecilho para maiores lucros. Somente a mudança poderia elevar ao poder um novo grupo político, com o qual seria possível celebrar novos acordos, realizar novos ganhos, superar a inércia desse mercado. Não por acaso, então, a palavra mudança soa como canto de sereia da boca da mídia, repleta de uma significação positiva.
À medida que a circulação social da informação fixa essa conotação em corações e mentes, o discurso da mudança se reproduz pela boca dos formadores de opinião, constituindo-se num movimento político aparentemente inocente, despretensioso, mas que vai arrastando a multidão. A penetração nacional dos veículos de comunicação de massa, principalmente de grandes redes de televisão, como a TV Globo, potencializa a mensagem e uniformiza a aceitação de que a mudança é algo positivo e a permanência algo nefasto.
Os resultados dessa investida da mídia já puderam ser percebidos nas eleições municipais de 2012. Na Câmara municipal de Belo Horizonte, por exemplo, apenas 19 dos 41 vereadores se reelegeram. A renovação foi de 54%! E por todo o Brasil a situação foi semelhante. Poucos prefeitos se reelegeram ou elegeram seu sucessor, mesmo tendo boa avaliação do eleitor e contando com a tal “máquina política”. No caso específico do Espírito Santo, 61% dos prefeitos eleitos vieram da oposição ao prefeito anterior.
Nas eleições estaduais e federais desse ano de 2014 também se pode perceber a força dessa ideia “turbinada” de mudança. A presidente Dilma Roussef sofre para manter a dianteira sobre os mudancistas Marina Silva, vereadora, deputda, senadora e ex-ministra, ex-PT, ex-PV, agora PSB e futuramente Rede Sustentabilidade, e  Aécio Neves, neto do histórico Tancredo Neves, presidente do poderoso PSDB, ex-diretor da Caixa Econômica Federal, ex-governador de Minas Gerais e atualmente senador. Quanta mudança eles representam, né, quanta renovação!? No Estado, o governador Renato Casagrande perde feio para o discurso mudancista do tradicional Paulo Hartung, correndo sério risco de não se reeleger.
Em suma, o eleitor brasileiro, que vai às ruas e grita por mudanças, parece não perceber de que jogo exatamente faz parte. Seu grito, que tantas vezes foi pintado como baderna na mídia, agora virou “grito dos excluídos” nessa mesma mídia. Políticos da “velha guarda” aparecem como novidade e palavras genéricas como educação, saúde e segurança, sempre tão negligenciadas e consideradas subversivas, viraram bordão e embalam programas políticos montados na base do Ctrl + C e do Ctrl + V.
Assim hipnotizados por esse canto moderno da sereia é que nossos eleitores vão às urnas no próximo dia 5 de outubro!

quinta-feira, 31 de julho de 2014

O “movimento do desencanto” e as distinções perdidas


No capitalismo, construímos nossa identidade com base no “ter” ao invés do “ser”. As coisas (dentre as quais muitos colocam as pessoas) ganham um caráter simbólico inusitado na estruturação da auto-estima de cada um. Não por acaso, as jóias simbolizam tão bem o sucesso e a opulência. Busca-se o raro, o único, o que distingue e separa o indivíduo da massa.

O indivíduo realiza-se individualmente por suas posses, construindo a imagem que faz de si mesmo, dos outros e do mundo. Essa auto-imagem  é muito significativa, porque ao passar do mundo individual para o coletivo, o individuo significa-se por uma série de comparações com os outros indivíduos desse universo, assumindo um papel social estereotipado.

No Brasil, a elite – nem só a econômica, mais também a cultural – construiu sua identidade sobre elementos distintivos, dentre os quais podemos elencar: o monopólio dos espaços laborais das grandes corporações privadas e estatais; acesso privilegiado aos espaços educacionais de nível superior e técnico graduados,  como as Universidades Federais e os Institutos Federais de Educação; utilização do automóvel particular e do avião como meios de transporte; larga utilização da empregada doméstica como executora dos serviços domésticos; uso do telefone como meio de comunicação; residência em condomínio de apartamentos; hábito de fazer as refeições fora de casa; utilização da saúde privada a partir de planos de saúde.

As reformas sociais ocorridas no Brasil a partir dos anos 90 do século passado, mas que se intensificaram  com  início do Governo Lula, em 2003, alteraram profundamente a configuração da sociedade brasileira, promovendo a ascensão social de milhões de indivíduos. Essa ascensão trouxe consigo uma alteração significativa nos hábitos desses indivíduos, introduzindo em sua rotina o acesso àqueles elementos supra mencionados como elementos distintivos da elite.

De repente as universidades públicas encheram-se de alunos cotistas e as particulares de bolsistas; as ruas encheram-se de carros frente ao alargamento do acesso ao automóvel e os aeroportos viraram verdadeiros formigueiros nos feriadões; os alunos cotistas e bolsistas formados passaram a disputar espaço laboral nas grandes corporações com os filhos da antiga elite; a regulamentação dos direitos trabalhistas das domésticas tornaram essa profissional mais cara e suas funções e jornada foram fixadas com clareza; o acesso a celulares, smartfones, tablets, notebooks e PC’s domésticos com internet tem tornado a comunicação um bem presente na vida de parcelas cada vez mais amplas da sociedade; prédios brotaram em todos os lugares e o financiamento tornou possível o sonho da compra do apartamento para uma infinidade de famílias; os restaurantes multiplicaram-se pela cidade e vivem cheios; o acesso aos planos de saúde mostraram a fragilidade do sistema privado de saúde e as filas para consultas e diagnósticos assemelham-se ao sistema público.

Diante dessa torrente de transformações, dessa massificação dos elementos  oriundos da identidade de posse, a elite dá sinais de que se sente desconstruída. Como  conseqüência, assume cada vez mais uma atitude pessimista com relação à realidade do país, assumindo o combate ao grupo político que governa e passando a empunhar abertamente a bandeira da “mudança”.  Essa postura, difundida largamente na mídia e na academia, notadamente dominadas por essa classe social, tem-se multiplicado na sociedade através da circulação social da informação, ampliando uma sensação de velório, de mundo em dissolução, de desesperança e de catastrofismo.

Não por acaso, os setores considerados “mais informados”, como professores, estudantes, médicos, artistas  e aqueles que lêem jornais e revistas tradicionais, os chamados jornalões e revistões,  são os principais entusiastas dessa espécie de movimento neo-niilista, de desencanto com o mundo e de crítica aos governos e ao poder em si.

Por enquanto o movimento do desencanto, que nega  os contornos da realidade de progresso econômico e social experimentado pelo Brasil na última década, demonstrado amplamente em estudos internacionais de órgãos reconhecidos, como a ONU, atormentado que está com o seu sentimento de perda, ainda não encontrou uma unidade orgânica, como se percebe nas manifestações. Mas alguns  grupos políticos, que já decifraram a esfinge, têm se capitalizado nessa conjuntura, solidarizando-se com a elite decaída e estruturando propostas contra-reformistas que prometem recuperar o “mundo perdido”.

Na prática, a ação política do movimento do desencanto converte-se num anti-petismo  corrosivo, remetendo ao principal partido da coalizão que governa o país o ônus de sua perda e toda a sua ira eterna. E, ainda que timidamente, em algumas ações de resistência ao Estado, como o apoio à sonegação e o boicote dos médicos brasileiros ao programa Mais Médicos podem ser notadas.


Por todo o exposto, acreditamos que o discurso de mudança do movimento do desencanto constitui-se em mais uma falácia, um expediente protelatório no movimento de transformações modernizadoras da sociedade brasileira,  que já incluiu milhões de brasileiros no mundo da dignidade e quebrou a lógica histórica do poder exercido em favor de uma minoria  distinta e contra uma maioria órfã.