quinta-feira, 31 de julho de 2014

O “movimento do desencanto” e as distinções perdidas


No capitalismo, construímos nossa identidade com base no “ter” ao invés do “ser”. As coisas (dentre as quais muitos colocam as pessoas) ganham um caráter simbólico inusitado na estruturação da auto-estima de cada um. Não por acaso, as jóias simbolizam tão bem o sucesso e a opulência. Busca-se o raro, o único, o que distingue e separa o indivíduo da massa.

O indivíduo realiza-se individualmente por suas posses, construindo a imagem que faz de si mesmo, dos outros e do mundo. Essa auto-imagem  é muito significativa, porque ao passar do mundo individual para o coletivo, o individuo significa-se por uma série de comparações com os outros indivíduos desse universo, assumindo um papel social estereotipado.

No Brasil, a elite – nem só a econômica, mais também a cultural – construiu sua identidade sobre elementos distintivos, dentre os quais podemos elencar: o monopólio dos espaços laborais das grandes corporações privadas e estatais; acesso privilegiado aos espaços educacionais de nível superior e técnico graduados,  como as Universidades Federais e os Institutos Federais de Educação; utilização do automóvel particular e do avião como meios de transporte; larga utilização da empregada doméstica como executora dos serviços domésticos; uso do telefone como meio de comunicação; residência em condomínio de apartamentos; hábito de fazer as refeições fora de casa; utilização da saúde privada a partir de planos de saúde.

As reformas sociais ocorridas no Brasil a partir dos anos 90 do século passado, mas que se intensificaram  com  início do Governo Lula, em 2003, alteraram profundamente a configuração da sociedade brasileira, promovendo a ascensão social de milhões de indivíduos. Essa ascensão trouxe consigo uma alteração significativa nos hábitos desses indivíduos, introduzindo em sua rotina o acesso àqueles elementos supra mencionados como elementos distintivos da elite.

De repente as universidades públicas encheram-se de alunos cotistas e as particulares de bolsistas; as ruas encheram-se de carros frente ao alargamento do acesso ao automóvel e os aeroportos viraram verdadeiros formigueiros nos feriadões; os alunos cotistas e bolsistas formados passaram a disputar espaço laboral nas grandes corporações com os filhos da antiga elite; a regulamentação dos direitos trabalhistas das domésticas tornaram essa profissional mais cara e suas funções e jornada foram fixadas com clareza; o acesso a celulares, smartfones, tablets, notebooks e PC’s domésticos com internet tem tornado a comunicação um bem presente na vida de parcelas cada vez mais amplas da sociedade; prédios brotaram em todos os lugares e o financiamento tornou possível o sonho da compra do apartamento para uma infinidade de famílias; os restaurantes multiplicaram-se pela cidade e vivem cheios; o acesso aos planos de saúde mostraram a fragilidade do sistema privado de saúde e as filas para consultas e diagnósticos assemelham-se ao sistema público.

Diante dessa torrente de transformações, dessa massificação dos elementos  oriundos da identidade de posse, a elite dá sinais de que se sente desconstruída. Como  conseqüência, assume cada vez mais uma atitude pessimista com relação à realidade do país, assumindo o combate ao grupo político que governa e passando a empunhar abertamente a bandeira da “mudança”.  Essa postura, difundida largamente na mídia e na academia, notadamente dominadas por essa classe social, tem-se multiplicado na sociedade através da circulação social da informação, ampliando uma sensação de velório, de mundo em dissolução, de desesperança e de catastrofismo.

Não por acaso, os setores considerados “mais informados”, como professores, estudantes, médicos, artistas  e aqueles que lêem jornais e revistas tradicionais, os chamados jornalões e revistões,  são os principais entusiastas dessa espécie de movimento neo-niilista, de desencanto com o mundo e de crítica aos governos e ao poder em si.

Por enquanto o movimento do desencanto, que nega  os contornos da realidade de progresso econômico e social experimentado pelo Brasil na última década, demonstrado amplamente em estudos internacionais de órgãos reconhecidos, como a ONU, atormentado que está com o seu sentimento de perda, ainda não encontrou uma unidade orgânica, como se percebe nas manifestações. Mas alguns  grupos políticos, que já decifraram a esfinge, têm se capitalizado nessa conjuntura, solidarizando-se com a elite decaída e estruturando propostas contra-reformistas que prometem recuperar o “mundo perdido”.

Na prática, a ação política do movimento do desencanto converte-se num anti-petismo  corrosivo, remetendo ao principal partido da coalizão que governa o país o ônus de sua perda e toda a sua ira eterna. E, ainda que timidamente, em algumas ações de resistência ao Estado, como o apoio à sonegação e o boicote dos médicos brasileiros ao programa Mais Médicos podem ser notadas.


Por todo o exposto, acreditamos que o discurso de mudança do movimento do desencanto constitui-se em mais uma falácia, um expediente protelatório no movimento de transformações modernizadoras da sociedade brasileira,  que já incluiu milhões de brasileiros no mundo da dignidade e quebrou a lógica histórica do poder exercido em favor de uma minoria  distinta e contra uma maioria órfã.  

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