quinta-feira, 11 de setembro de 2014

MUDANCISMO: O MODERNO CANTO DA SEREIA

A palavra “mudança” é um desses vocábulos recheados de valor ideológico. Por sua essência dialética, a mudança suscita sempre esperanças ou medos, porque seu principal componente é a desestabilização, o câmbio daquilo que existe por algo “diferente”. Esse “diferente” pode ser, portanto, melhor ou pior.
Ocorre que a associação midiática da mudança a um campo semântico positivo ou negativo, dentro de um jogo maniqueísta, acrescenta-lhe um juízo de valor que se multiplica de maneira veloz nas entranhas da sociedade. Portanto, dependendo dos interesses dos atores atuantes no circuito da circulação social da informação, a mudança vira algo bom ou algo mau.
No contexto atual da relação entre mídia e governo, marcado por uma relação desgastada por um ciclo de doze anos, onde os acordos já esgotaram as possibilidades de ganhos de parte a parte, onde todas as concessões já foram feitas, o negócio da informação vê na estabilidade um empecilho para maiores lucros. Somente a mudança poderia elevar ao poder um novo grupo político, com o qual seria possível celebrar novos acordos, realizar novos ganhos, superar a inércia desse mercado. Não por acaso, então, a palavra mudança soa como canto de sereia da boca da mídia, repleta de uma significação positiva.
À medida que a circulação social da informação fixa essa conotação em corações e mentes, o discurso da mudança se reproduz pela boca dos formadores de opinião, constituindo-se num movimento político aparentemente inocente, despretensioso, mas que vai arrastando a multidão. A penetração nacional dos veículos de comunicação de massa, principalmente de grandes redes de televisão, como a TV Globo, potencializa a mensagem e uniformiza a aceitação de que a mudança é algo positivo e a permanência algo nefasto.
Os resultados dessa investida da mídia já puderam ser percebidos nas eleições municipais de 2012. Na Câmara municipal de Belo Horizonte, por exemplo, apenas 19 dos 41 vereadores se reelegeram. A renovação foi de 54%! E por todo o Brasil a situação foi semelhante. Poucos prefeitos se reelegeram ou elegeram seu sucessor, mesmo tendo boa avaliação do eleitor e contando com a tal “máquina política”. No caso específico do Espírito Santo, 61% dos prefeitos eleitos vieram da oposição ao prefeito anterior.
Nas eleições estaduais e federais desse ano de 2014 também se pode perceber a força dessa ideia “turbinada” de mudança. A presidente Dilma Roussef sofre para manter a dianteira sobre os mudancistas Marina Silva, vereadora, deputda, senadora e ex-ministra, ex-PT, ex-PV, agora PSB e futuramente Rede Sustentabilidade, e  Aécio Neves, neto do histórico Tancredo Neves, presidente do poderoso PSDB, ex-diretor da Caixa Econômica Federal, ex-governador de Minas Gerais e atualmente senador. Quanta mudança eles representam, né, quanta renovação!? No Estado, o governador Renato Casagrande perde feio para o discurso mudancista do tradicional Paulo Hartung, correndo sério risco de não se reeleger.
Em suma, o eleitor brasileiro, que vai às ruas e grita por mudanças, parece não perceber de que jogo exatamente faz parte. Seu grito, que tantas vezes foi pintado como baderna na mídia, agora virou “grito dos excluídos” nessa mesma mídia. Políticos da “velha guarda” aparecem como novidade e palavras genéricas como educação, saúde e segurança, sempre tão negligenciadas e consideradas subversivas, viraram bordão e embalam programas políticos montados na base do Ctrl + C e do Ctrl + V.
Assim hipnotizados por esse canto moderno da sereia é que nossos eleitores vão às urnas no próximo dia 5 de outubro!