quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

O Santo que foi e voltou rindo

        Diz que a pensão de Da Duarda sempre tava as mosca porque visitar mesmo a cidade ninguém nem não vinha não senhor. E a velha vivia mesmo era do descaramento das neta Julinha e Talita, umas menina de dezesseis anos mais ou menos que de engraçadinhas que era, divertia os homem tudo do lugar.
        E foi que num dito dia de chuva muita, que bateu na pensão Um de fora e pagou logo de vez a quinzena, vomitando que tinha negócio por ali e ficava algum tempo. Trejeitado de cidade, o Um chamava a atenção das menina, mas afastava as duas arrotando moralidade, dizendo-se religioso praticante e inimigo de uma tal de pedofilia que ninguém sabia mesmo quem era. Como freqüentava a igreja de padre Damião depois da comida e antes da dormida todo santo dia, ficou que devia ser mesmo religioso e especulava a gente que podia até ser um enviado da Santa Madre Igreja que vinha ali pra modo de espiar a conduta do padre.
        Amâncio Barbeiro foi o que falou primeiro que o Um era de bem, que cortava cabelo uma vez por semana, fazia barba todo dia e tinha conversa pouca e dinheiro bom. Falava que devia ser artista, porque perguntava sobre as igreja do lugar e os santo de casa em cada uma. Um dia trouxe até pra ele uma imagem de Nossa Senhora e dera dado dizendo gosto e amizade, desejando que a imagem ficasse ali na barbearia pra modo de abençoar os negócio e as pessoa.
        Padre Damião também ajuizava bem o Um, dizendo aqui e ali que ficava horas na igreja, desenhando num bloco os detalhe do altar barroco da capela. Aliás, esses desenho padre apurava que o Um mandava pra capital, por fax, da farmácia de Seu Dimundo. O farmacêutico negava o serviço porém, falava apenas que vendia pro Um pastilha pra garganta e uns pote de vaselina da boa, todo o estoque encalhado.
        E foi que numa quarta-feira de chuvão o Um nem não apareceu na barbearia e Amâncio Barbeiro é que primeiro deu o alarme da falta do quinhão matutino. Devia que adoecera, acrescentara explicativo, porque se não era isso ele tinha desbarbado como desbarbava todo dia. Mas logo Narinha de Seu Cutelo acusava que o Um partia de madrugada ainda juntado de mala e cuia na Kombi que vinha especial só pra modo do frete.
        Mas o quiprocó se formou foi mesmo mais meia hora depois, com Padre Amâncio doido correndo e chorando pelas rua, gritando que alguém roubava Deus e os Santo e coisa e tal jurando de excomungação e inferno aquele que tinha a covardagem de afanar na sua igreja.
        E foi, seu moço. Demorou um tempinho pra modo do povo entender que a vaselina encalhada que Seu Dimundo  empurava no Um servia mesmo era de escorregante na passagem apertada da basculeta que dos fundo dava pra dentro e pra fora da Casa de Deus.
        Apurado o fato e inventariada a roubação, padre Amâncio em pura inconformação reclamava mais da falta de um São Francisco que vinha das mão do artista aleijado e que o Um levava sem pena nem dó só deixando o buraco vazio no altar de pedição muita, rezação alguma e obrigadação quase que nenhuma. Mas foi Da Duarda, que mesmo sem perder pensão e coisa, porque o Um nisso era direito e até deixava credito quando fugissaía de madrugada, deu o tom exato do castigo, pragueando que o Um roubava a fé e que a fé se vingava, de modo que sua boca não ia aproveitar o doce, o azedo, o amargo ou o ardido que do roubo pudesse comprar.
E assim foi. Quando morria o dia chegava cabo Zeca mais a volante vomitando que Deus vencia, fechando com o santo o buraco vazio do altar, porminunciando que a Kombi velha caía num buraco de curva ali por perto da fazenda de Coronel Ramiro e matava todo mundo de dentro.
Especial missa rezava Padre Amâncio naquela noite, logo depois de Inácio pedreiro fechar com bloco e cimento o buraco da basculeta dos fundos, obrigadando as benção e aconselhando o fim das basculetas nas casa, porque o inimigo é liso e vai penentrando em qualquer abertura que deixe o crente. Foi nesse momento que, pra espantamento de todos, subiu pra cima do altar o professor Alabastro Coruja e, colocando os óculos, gritava e todo mundo prestava atenção que o santo que ía carrancudo, voltava rindo. Rindo das pecadagem do povo, completava beata Francisca de Seu Norato.

Quando o povo tocava fogo na pensão de Da Duarda, pra modo de fazer a exorcinzação completa da maldade que o Um deixava no lugar, Padre Amâncio rezachichava o Pai Nosso, pedindo pelo povo que em pecadagem nem não via os sinal naquilo tudo. Mas de qualquer maneira o sorriso do santo ficou nele assim mesmo sim senhor. Só que não ficou pra sempre não. Quando entraram batizando um filho nascido de Sarita de Tião açougueiro, que diziam frequentar terreiro de Mãe Biela, fechou de novo a cara e não ri pra ninguém não senhor. E é. Essa é a história. Tudo verdade verdadeira!

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