sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

O refluxo civilizatório do Século XXI

O nosso cotidiano desse início de século XXI não se cansa de expor a ferida da nossa formação social perversa. A violência, a pobreza, a corrupção e a degradação ambiental são as faces mais visíveis dos descaminhos da humanidade, universalizando-se e naturalizando-se, como se fosse algo inevitável. Então nos assombramos com o nosso potencial destruidor implícito em nossa obra criativa sobre a Terra e, se formos honestos, não podemos nos furtar à indagação fatídica: Como é que chegamos a esse ponto?

Inicialmente convém ressaltar que somos produtos assimétricos das revoluções burguesas, cujo lema foi exatamente “liberdade, igualdade e fraternidade”. Entretanto, as revoluções burguesas ocorreram de forma muito diversa no tempo-espaço da cultura dos países, de modo que aquelas três palavrinhas acabaram por se converter apenas em retórica formal na maior parte do globo, reduzidas apenas ao aspecto econômico, ao mercado, tido como mediador das relações humanas. A “mão invisível” desse mercado mostrou-se eficientíssima na tarefa de produzir riquezas, tanto quanto na capacidade de reproduzir a iniquidade social e ambiental e de naturalizá-las. A destruição do meio ambiente passou a ser tratada como algo intrínseco ao desenvolvimento; e os deserdados de repente despontam como um mal necessário da prosperidade, como exército de reserva que regula o lucro via competição pelo direito de trabalhar para reproduzir sua existência, como mercado consumidor latente, escalonável, pronto para ser ativado em momentos de crise de superprodução e desativado em momentos de realização do capital.

Como produto do processo histórico que hegemonizou o capitalismo como forma de organização econômica da sociedade, o homem do século XXI se vê diante de dois dilemas fundamentais: 1) aceitar a quebra paradigmática da unicidade da raça humana e admitir que a felicidade dos homens de uma minoria iluminada se dá necessariamente ante o sacrifício de uma maioria infortunada; e, 2) Aceitar a inevitabilidade da inviabilização da vida humana sobre a Terra como produto lógico de suas necessidades de reprodução de existência. Essa duas premissas, cruamente deterministas, negam dialeticamente a tese racionalista das revoluções burguesas, por que os seus pais iluministas jamais poderiam imaginar que o laissez-faire acabaria por se converter exatamente em servidão humana e destruição do planeta, como tem ocorrido; igualmente negam a Marx, por que o mestre alemão nunca imaginou que os homens poderiam amar a servidão ou que o planeta poderia não sobreviver para ver a revolução.

Enfim, a ética instrumentalizada capitalista reproduz na arena social aquilo que a religião já fez no campo espiritual: as condições materiais seriam apenas a manifestação distintiva da escolha salvacionista e a depauperação o indício da condenação aos suplícios da perdição. E assim fazendo, divide a humanidade, maniqueísticamente, entre abençoados e prósperos, “pessoas de bem”, ajustadas à dinâmica produtiva tal qual anjos celestiais; e miseráveis decaídos, incapazes ao  ajustamento à dinâmica da prosperidade por todo tipo de vício, começando pela preguiça e caminhando até a prodigalidade hedônica. Em termos ontológicos, haveria os que ajustam-se à sociedade civil e prosperam e aqueles que, presos ao direito natural, estariam fadados a caminhar pelo vale das sombras das trevas da exclusão em busca da redenção. Tudo ideologicamente muito bem justificado!

O modelo de sociedade humana que desponta no século XXI, portanto, funda-se sobre as premissas de que as desigualdades extremas são produto natural dos méritos ou dos vícios, construídos nas ações individuais; e de que o modo superior de vida presente conquistado sob a égide do mercado constitui o fim da história, constituindo-se em si na verdadeira humanidade. Questionar a perfeição dessa construção humana seria assemelhar-se a Lúcifer na contestação da ordem celestial... e punível com sansão semelhante àquela imposta pela autoridade divina aos insurgentes.


Andamos, andamos, mas ao final acabamos sempre desvelando as mesmas tramas teológicas a governar o modo como se organizam as sociedades humanas.

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